Projeto Caruso: mobilidade conectada e acessível a todos

Texto: David Espanca
Data: 11 Maio, 2020

O “aftermarket” criou as raízes para um projeto global em termos de dados e serviços. As oficinas, entre outros “players”, serão os principais beneficiados com o projeto Caruso.

 

O projeto Caruso é um “marketplace” de dados e serviços para o “aftermarket”. Alexander Haid, o seu diretor-geral, explica: “A nossa visão é tornar o setor aberto, digital e de mobilidade conectada, mas para se atingir isso todos os intervenientes no mercado precisam de um acesso rápido e fácil aos serviços e dados. E é isso que o Caruso pretende e torna possível”.

Ali, os fornecedores podem encontrar uma outra fonte de rendimentos para os seus negócios, usando-o como um canal de vendas adicional que abre novas oportunidades de crescimento para um amplo grupo-alvo. De fácil e rápido acesso, os seus utilizadores podem escolher entre uma ampla variedade de “players”, de forma a obter a oferta que melhor lhes convém, aumentando o seu portefólio de serviços de mobilidade mais rapidamente e melhorando a eficiência dos seus negócios.

De entre os potenciais utilizadores finais encontram-se as oficinas, fabricantes de peças, gestores de frotas, empresas de “rent-a-car”, fornecedores de “software” e de serviços, companhias de seguros, empresas de assistência na estrada ou operadoras de telecomunicações.

A plataforma funciona como um mercado unificado de dados e serviços, usando a IoT (Internet das Coisas) e tecnologias de ponta na gestão de dados numa série de serviços alojados na nuvem. Todos os dados são harmonizados para um fácil acesso e padronizado através das APIs – Interface de Programação de Aplicações.

Reação do “aftermarket”

As principais funcionalidades passam pelo comércio B2B de dados e serviços, além de um fácil acesso e tratamento de contratos e faturas. Todos os tipos de dados do veículo podem ser integrados pelos parceiros nos seus próprios aplicativos e utilizados para novos serviços de mobilidade.

Além dos dados OEM do veículo e dos sistemas baseados em OBD2, um grande número de fornecedores de dados complementares estão já incluídos. Várias fontes de dados podem ser integradas, permitindo aos fornecedores e consumidores de dados oferecerem serviços de mobilidade inovadores, poderosos e seguros.

Em Portugal, a iniciativa tem um representante ativo, a ANECRA – Associação Nacional das Empresas do Comércio e da Reparação Automóvel. A TURBO OFICINA foi saber um pouco mais como funciona, na prática, este “marketplace”.

Na génese do Caruso está uma reação do “aftermarket” a uma situação nova no mercado, que “pode constituir uma ameaça ao mercado do pós-venda de uma forma geral”, adiantou Roberto Gaspar, secretário-geral daquela entidade. Desde maio do ano passado, as novas viaturas passaram a estar equipadas com o sistema “e-call” (ativado em caso de acidente), o que implica estarem conectadas aos fabricantes automóveis, sendo através destes que é, então, feita a ligação aos sistemas de emergência médica de cada país.

Os veículos, ao estarem ligados entre estes dois pontos, explica o interlocutor, “faz com que as marcas, ou importadores, passem a ter uma vantagem adicional face àquilo que é o ‘aftermarket’, pois passam a ter acesso, de forma quase imediata, à informação do carro, inclusive georreferenciação, informações produzidas através dos sensores, enfim, um número grande de situações que podem ser acedidas remotamente”.

E prossegue: “Se um fabricante tem acesso a essa informação, passa a ter uma vantagem competitiva enorme face ao que é o ‘aftermarket’, já que consegue aceder ‘online’ e ter acesso a dados qualitativos. No limite, uma marca pode comunicar com o condutor e informar determinado tipo de ocorrências no veículo, fazendo ‘marketing’ preditivo de uma forma que mais ninguém consegue”.

O Caruso apresenta-se como um processo em que tem como principal acionista a TecAlliance que, por sua vez, representa cerca de 35 das 50 principais empresas de “aftermarket”. Uma das suas premissas passa por negociar junto dos poderes instituídos, nomeadamente da Comissão Europeia, alertando para “o desequilíbrio que é este processo”, tal como revela o secretário-geral da ANECRA.

“Data center” a nível global

A outra vertente é mais tecnológica, já que apresenta um “data center” que armazena toda a informação, a que os parceiros podem ter acesso mediante um custo fixo. E os parceiros podem ser as marcas, empresas do “aftermarket”, seguradoras, oficinas, gestoras de frotas, no fundo qualquer empresa que tenha interesse em aceder a informação qualitativa dos automóveis para melhorar o seu negócio.

No entanto, devido a aspetos legais, o Caruso ainda não está em pleno funcionamento. Roberto Gaspar lembra: “Do ponto de vista das marcas, estamos a falar de diferentes velocidades, ou seja, BMW, Grupo Volkswagen ou Mercedes já trabalham há muito tempo com o sistema ‘e-call’, mas a maior parte das marcas ainda está muito longe de ter acesso ‘online’ à informação”.

O Caruso é um “data center” não só especificamente na lógica de acesso aos dados, da conectividade dos carros e dos dados que daí provêm, mas também a nível global, visto que há operadores dos mais diferentes países, que procuram também parceiros noutros países para oferecer os seus serviços, funcionando como um “marketplace business to business”.

No passado mês de maio, a ANECRA fez uma apresentação na reunião anual do Caruso, que teve lugar em Colónia (Alemanha). Por isso, acrescenta Roberto Gaspar, “já identificámos vários projetos de interesse para alguns serviços dos nossos associados, numa primeira análise, e depois então para o mercado de uma forma geral”.

A essência do projeto Caruso visa a obtenção dos dados “online” provenientes dos veículos, sendo um processo gradual, já que terá de ter agregadas todas as marcas automóveis com essa capacidade tecnológica efetiva e operacional de recolha da informação.

Quando esse processo estiver concluído, uma oficina individual ou uma rede, através da ANECRA, poderá ter acesso a informações qualitativas sobre o que se passa com os veículos da sua zona e, em função disso, trabalhar essa informação, efetuando ações de “marketing”, por exemplo, adequadas ao pretendido.

ANECRA lança novo produto

O Caruso foi apresentado aos associados da ANECRA no ano passado. “Neste momento estamos a trabalhar para que as pequenas e médias oficinas, que dificilmente conseguiriam entrar neste projeto, possam ter acesso ao mesmo”. Nesse sentido, continua o secretário-geral, “será lançado, no decorrer da nossa Convenção, um novo produto que permita isso mesmo, ou seja, criar um modelo em que possamos dar acesso a pequenas oficinas ou operadores, que precisem pontualmente de algum tipo de informação, sem ter de recorrer a licenças, podendo pontualmente ter acesso a determinada informação”.

Quanto ao desenvolvimento do projeto, “ele estará sempre dependente de diversos fatores que não controlamos, como a aprovação de uma nova legislação europeia a permitir que o acesso à informação seja feito de uma forma democrática e para todos os intervenientes no mercado”, explica o interlocutor.

O segundo ponto, tal como referido, “tem a ver com o facto de ser necessário que todas as marcas, ou muitas delas, estejam no mesmo patamar, ou seja, com a mesma capacidade tecnológica e operacional de recolher e trabalhar essa informação, disponibilizando-a posteriormente”.

Por enquanto, Roberto Gaspar afirma: “Estamos a usufruir daquilo que o Caruso representa hoje. Muito mais do que um ‘data center’ dos dados que vêm das viaturas, é um ‘data center’ à escala global, no qual os vários operadores têm informação para dar ao mercado e aquilo que fazemos é perceber o que está lá dentro, aquilo que é interessante para colocar no mercado e que, de alguma forma, pode melhorar o processo do negócio”.

Em relação ao futuro, além do lançamento daquele produto, a ANECRA está a trabalhar em diferentes serviços dentro do projeto, já identificados como sendo interessantes para o mercado português, que pretendem também disponibilizar aos seus associados.

Artigo publicado originalmente na Turbo Oficina 81, de outubro de 2019, que pode ser consultado online.

Partilhar