Opinião

Published on Abril 9th, 2013 | by Cláudio Delicado

Rui Paulo Figueiredo (PS): “ É fundamental apostar no financiamento das PME do setor automóvel”

Na edição de aniversário da Turbo Oficina ouvimos os grupos parlamentares sobre o setor automóvel e o aftermarket. Durante esta semana publicamos as cinco entrevistas. Hoje é a vez do PS.

 

– Como analisa a atual situação do mercado automóvel em Portugal?

A quebra das vendas de automóveis novos e usados afetou de forma dramática as empresas que se dedicavam a este ramo de atividade económica. Esta quebra resulta do agravamento fiscal, do aumento desmesurado de impostos diretos e indiretos quer sobre o rendimento quer sobre o consumo, o corte nos subsídios, a taxa de solidariedade, produzindo estas medidas a diminuição considerável do rendimento disponível das famílias portuguesas. Esta conjugação de fatores, resultado de uma politica cega de austeridade, leva a que os portugueses não possuam capacidade económica e financeira para adquirir automóveis novos ou usados. Além do mais, esta situação é alavancada pelas dificuldades que as instituições financeiras estão a colocar no financiamento do crédito automóvel.

 

– E em relação ao mercado da reparação e manutenção automóvel?

Segundo os dados que a ANECRA nos divulga diariamente, são muitas as Pequenas e Médias Empresas (PME´s) ligadas ao setor da reparação e manutenção automóvel que têm encerrado, com graves consequências na ótica do emprego e da sustentabilidade económica do país. É importante garantir o futuro destas empresas e a manutenção dos seus postos de trabalho. Aliás, outros sectores de atividade, como a restauração e a construção civil, têm vindo a experimentar o mesmo grau de dificuldades fruto do desmantelamento da economia portuguesa.

 

– Este tem sido um dos setores mais afetados pela crise e pelo aumento de impostos. Foi um mal necessário?

A atual crise económica e financeira afetou de forma considerável toda a cadeia de valor do setor automóvel, nomeadamente na área de comercialização, reparação de veículos e venda de peças. Certamente que não é asfixiando a economia que conseguimos um crescimento económico sustentável e o desenvolvimento do país. Há que ter um outro caminho. Consolidação e rigor orçamental sim. Mas é imperioso tratar ao mesmo tempo da economia. O que o Governo não tem feito.

 

– Qual é o caminho para recuperar este setor?

Este setor necessita de várias respostas e que o Governo olhe para ele com a especificidade que merece. O setor precisa de financiamento e apoios à modernização e à formação. No entanto, o sector não pode estar alheado da realidade do país e da necessidade de conjugar a consolidação das contas públicas como o desenvolvimento económico. Aliás, o Partido Socialista apresentou um conjunto de medidas concretas para o crescimento económico do país que passam pela conjugação destes fatores. Medidas para parar com a austeridade, para estabilizar a economia, para apoiar os desempregados, para uma estratégia realista para a diminuição da dívida pública e do défice de forma e para termos uma verdadeira agenda para o crescimento e emprego. Só dessa forma o sector poderá ter futuro.

 

– Quais as ideias que o seu partido tem para o setor das oficinas/reparação/manutenção automóvel, onde se incluem grandes grupos no setor das peças também?

O Partido Socialista, através de um Projeto de Resolução apresentado na Assembleia da República, propõe um conjunto de medidas para o setor e para o apoio às suas empresas. Estas medidas estruturantes passam por se encontrarem soluções para o financiamento bancário das PME´s do setor automóvel, pelo reforço e melhoria da eficácia da fiscalização no combate à economia paralela no sector automóvel, pelo estudo da suspensão do IUC em relação aos veículos usados que não circulem na via pública, por se encontrarem em processo de revenda, pela agilização e simplificação dos processos relativos ao registo da propriedade automóvel, pela disponibilização de linhas de financiamento comunitário para a melhoria da produtividade no ramo automóvel e pela promoção e adoção de boas práticas no relacionamento entre consumidores e fornecedores do setor automóvel.

Estas medidas, em suma, concentram-se no apoio ao investimento e à formação e o recurso aos fundos comunitários. O Partido Socialista defende ainda uma maior atenção às dificuldades que as empresas do setor têm na gestão ambiental e na procura das melhores práticas no relacionamento com os consumidores.

 

– Esta política não pode fazer com que outras empresas multinacionais não se queiram radicar em Portugal?

Certamente que as empresas multinacionais investem onde lhes dão melhor retorno. Com a atual situação, não é fácil essas empresas investirem em Portugal. O que o país necessita é de criar condições para que o investimento seja uma realidade, pois só com investimento se cria emprego, se gera riqueza e desta forma se contribui para o crescimento do país. Necessitamos de captar Investimento Direto Estrangeiro através da diminuição dos custos de contexto, de uma melhor e célere justiça e de melhores ligações a nível de transporte de mercadorias.

 

– Depois desta crise julga que o setor automóvel estará mais forte ou foi totalmente aniquilado? Esta foi uma forma de “limpar” um pouco o mercado?

O setor vive grandes dificuldades em resultado da ação direta do governo empenhado em destruir toda a atividade económica de Portugal, em nome de um fanatismo ideológico sem precedentes em que o primado da teoria e do experimentalismo económico se sobrepõe ao superior interesse nacional. Mas estou convicto e acredito na capacidade dos empresários e dos trabalhadores do setor para garantir o futuro do mesmo.

 

– Prevê alguma medida urgente para incentivo às PME.

Como disse anteriormente o Partido Socialista apresentou um projeto de resolução na Assembleia da República sobre o setor automóvel. O Partido Socialista exigiu medidas urgentes e concretas de apoio às PMEs, seja com fundos nacionais seja com fundos comunitários. Além dessas medidas, recomendou ao governo a suspensão do IUC em relação aos veículos usados que não circulem na via pública por se encontrarem em processo de revenda e a agilização dos processos relativos ao registo da propriedade automóvel.

 

– A profissionalização é o caminho? As empresas portuguesas têm capacidade para competir com as empresas internacionais?

Num setor como este é crucial o acompanhamento da evolução tecnológica, pelo que é necessária a formação contínua com vista ao aumento da produtividade das empresas, assim como o apoio à modernização das empresas. Dessa forma, certamente as empresas portuguesas conseguem competir em qualquer mercado. Fomentar as exportações é uma necessidade clara da nossa economia, assim como a substituição das importações por produtos e serviços de empresas nacionais.

 

– A fuga de impostos é um problema em algumas destas empresas, nomeadamente em oficinas que trabalham à margem da lei. Qual a medida que defendem para acabar com este problema?

No campo da reparação automóvel e no campo da venda de automóveis usados existe uma grande componente de economia paralela que lesa o Estado do ponto de vista tributário e apresenta uma concorrência desleal às empresas cumpridoras das suas obrigações. É importante que seja reforçada a eficácia da fiscalização no combate à economia paralela no sector automóvel

 

*Rui Paulo Figueiredo é deputado do PS

 

Amanhã publicamos a entrevista com Hélder Amaral, deputado do CDS-PP.

 

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