Ambiente

Published on Dezembro 21st, 2012 | by Cláudio Delicado

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Óleos usados. Rentabilizar o desperdício

A solução para os óleos usados começa na oficina. A recolha, que está a funcionar em todo o país, da ilha do Corvo, onde há dois aderentes, até Lisboa, onde existem centenas, é obrigatória e sem custos. O problema está na venda ilegal deste resíduo.

Ao longo da estrada do Outeiro, os números das portas ultrapassam os quatro dígitos. Estamos na Abóboda, em São Domingos de Rana. Entre as casas, quase sempre iguais, não há qualquer identificação sobre a operadora que recolhe os resíduos automóveis nos concelhos mais próximos. Ao longe, onde apenas existem fábricas, dois depósitos amarelos irrompem na paisagem de telhados. À entrada, o camião-cisterna que recolhe os óleos usados está preparado para sair, enquanto outro chega para efectuar a trasfega da manhã. O encontro não é casual. Para a operação ser rentável, os horários estão definidos de acordo com as características dos diversos produtores de óleos usados, mas também dos próprios veículos, com capacidade para apenas algumas recolhas.

A operadora precisa de identificar as condições dos seus produtores, desde a quantidade de resíduo que é entregue, até à acessibilidade ao interior das instalações. Esta deve ainda encontrar os horários mais adequados para a operação. Quando a relação entre ambos não é próxima, podem surgir algumas dificuldades. “Os concessionários recebem os carros de manhã, pelo que têm as oficinas ocupadas. E assim, a sucção do óleo é impossível para o veículo de recolha”, explica Nuno Magalhães, gestor na José Maria Ferreira & Filhos.

Esta operadora, como as restantes que existem no país, só recolhe resíduos em oficinas registadas na SOGILUB, a sociedade responsável pelo tratamento dos óleos lubrificantes usados. E embora este serviço não represente qualquer encargo económico para os produtores, alguns continuam alheados das suas obrigações. Os efeitos da gestão inadequada, assim como a venda para outros destinos, são considerados crimes ambientais. O regime geral de resíduos, actualizado no ano passado, responsabiliza o produtor pelo encaminhamento incorrecto dos óleos usados. A responsabilidade só é transferida quando a oficina recebe a documentação que comprova a entrega dos óleos a uma empresa devidamente licenciada para a sua gestão. No entanto, este resíduo ainda pode ser usado como combustível,pelo que o seu valor no mercado paralelo aumenta. “Há conceitos e práticas que devem ser alteradas, mas é preciso que as pessoas tenham vontade de mudar. Os mecanismos de recolha são todos conhecidos”, alerta Nuno Magalhães.

A venda de óleos usados é considerada ilegal, mas ainda subsiste. Embora seja uma atividade que diminuiu durante os últimos anos, as autoridades não a conseguiram extinguir.

O PROCESSO É CONTÍNUO

O registo é essencial para potenciar a reciclagem, mas também para identificar os incumpridores. “Há produtores que sempre venderam óleo ilegalmente, mas agora precisam de escape legal. Sem isto, a recolha nunca será feita.”, explica Paulo Ferreira, gestor na mesma operadora. No entanto, para os que cumprem, o processo é muito célere. “Se o registo é efectuado hoje, estamos em condições de proceder à recolha na semana  seguinte”, acrescenta. Mas o produtor tem, de acordo com a actividade que desenvolve, obrigações ambientais para cumprir. O processo é igual para todos. O produtor contacta a SOGILUB, que encontra o operador responsável pela sua área geográfica. Após a emissão da guia para acompanhamento de resíduos, assim como da guia de transporte, ocorre a primeira recolha, onde o produtor é caracterizado quanto à amostra.

Há dois tipos de amostras que são recolhidas no produtor: uma para efeitos de caracterização, que é efetuada durante a primeira recolha, e outra amostra que, havendo dúvidas, é retirada para verificar se existe contaminação com água ou sedimentos. “Este protocolo parece algo complicado, mas é bastante simples”, revela Paulo Ferreira. O resíduo, quando chega à operadora, é descarregado para um depósito. Após o tratamento, o óleo segue para reciclagem, em Portugal, ou para regeneração, em Espanha e na Alemanha.

Mas não é sempre assim. As contaminações químicas com outras misturas inviabilizam todos estes destinos. “Quando os produtos têm que ser incinerados, há um grande custo económico associado.”, explica Nuno Magalhães. Pelo que, quando o resíduo não representa uma solução positiva, passa a existir um problema com custos acrescentados de tratamento. Quando a valorização do resíduo não paga toda a operação, é o eco valor que cobre este défice. Só assim este serviço pode ser gratuito para os produtores.

Depois, se o resíduo tiver boa qualidade, ainda pode ser valorizado no mercado, o que atenua efeito dos custos. As marcas de óleos são responsáveis pelo ciclo de vida do produto. Além disso, os consumidores ainda pagam um eco valor, que permite financiar todo este processo. É isso que garante os recursos da SOGILUB, já que esta é uma sociedade sem fins lucrativos.

TRÊS PERGUNTAS A ANÍBAL VICENTE, GERENTE-DELEGADO DA SOGILUB

Como funciona o processo de recolha dos óleos usados?

Quando arrancou, em 2006, existiam cinco operadores no continente, mais outro por cada uma das ilhas. Hoje em dia, são muitos mais. Este é um sistema maduro, com mais de seis anos de existência, o que permite um processo mais rápido. A entidade gestora é responsável por uma solução nacional, que é igual para todos os produtores. Quando o produtor efectua o registo, quando procura uma solução para este resíduo, terá que cumprir algumas regras. Toda a informação sobre os produtores é enviada para a Autoridade Nacional de Resíduos, através do Sistema Integrado de Registo da Agência Portuguesa do Ambiente. Portanto, só conseguimos seguir com o processo quando existe este registo, onde se identifica quem é produtor, mas também qual o seu resíduo.

Quais as maiores dificuldades que a SOGILUB encontra entre os produtores?

Há uma tentativa de empresas que nunca entregaram óleo, pedirem este certificado. Isto tem um interesse, porque como o produtor é responsável pelo encaminhamento dos resíduos, quando alguns são deficitários, a recolha é paga. Por isso, há a tendência para aproveitar o sistema da recolha dos óleos, que não tem custos. Mas as boas práticas ambientais são recfompensadas e quando as autoridades chegam à oficina, valorizam o certificado da SOGILUB.

Como caracteriza a evolução deste actividade?

No ano passado houve um decréscimo do mercado dos óleos novos em quase 10 por cento. Há duas razões que explicam isto: os óleos evoluem para tempos de trabalho mais alargados; e os condutores não cumprem os planos de manutenção como antes. Por outro lado, a recolha de óleos ultrapassou os 44 por cento, o melhor resultado dos últimos anos. Esta percentagem corresponde a quase 30 milhões de litros, de onde 25 por cento devem ser encaminhados para reciclagem,
que é o destino mais correcto.

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One Response to Óleos usados. Rentabilizar o desperdício

  1. Carmona says:

    Mais uma treta para os acionistas deste tipo de consórcios, montarem um cartel onde dominam a belo prazer sem concorrência num negocio de milhões!

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