Especialista

Published on Dezembro 28th, 2012 | by Cláudio Delicado

Mulheres. Mecânicas, com orgulho

Foi difícil descobrir três exemplos de mulheres que sujam as mãos na oficina e que têm gosto no que fazem. Esta é a única forma de sobreviver num mundo de homens. Recebem olhares de espanto, lidam com a desconfiança de alguns colegas e ouvem as bocas do costume, em especial por parte dos clientes. Mas qualquer uma delas já ganhou o seu espaço. Fazem o mesmo trabalho de um homem e concordam que a maior limitação é apenas física. Alguns colegas ficam apenas a roer-se por dentro quando elas resolvem coisas que eles não conseguiram. Dizem que têm que provar o dobro. Não esquecem o seu lado feminino e gostam de se arranjar mas atenção: aqui não há mulheres de minissaia.

“O meu pai tinha uma empresa de camionagem e eu gostava muito de andar pela oficina. Sempre me fascinou ver a reparação de carros velhos”, conta Cheila Pouseiro, 20 anos, mecânica há dois. Mas o pai nunca achou muita piada a este gosto, pouco comum a uma menina. “Vai brincar para junto da tua mãe” ouvia constantemente. Mas estava decidida e aos 15 anos foi tirar o curso de mecatrónica na Mercedes, durante três anos. Era a única mulher.

A mesma experiência teve Vanessa Marques, 23 anos, a trabalhar há quatro. Tirou o curso de três anos na ATEC e num total de 300 alunos era a única mulher. Estagiou três anos numa oficina oficial da Volkswagen e agora, há um ano, está na Fiat, no concessionário A. Braz Heleno, nas Caldas da Rainha. “Desde pequena que sempre preferi brincar com carros em vez das bonecas. A minha avó, que tomava conta de mim, não achava muita piada e estava sempre a tentar-me empurrar para as bonecas”. É claro que foi sempre rotulada de maria-rapaz. Mas não esmoreceu. Não era o sonho da mãe, mas acabou por apoiá-la, tal como o pai. Hoje dá jeito, porque oferece serviços de mecânica à família. Vanessa foi a única que não teve influências familiares a influenciar a sua carreira.

DIFICULDADE É APENAS FÍSICA

O mesmo não pode dizer Cristina Silva Brito, 45 anos. A empresa Brito&Silva foi fundada pelo pai, em 1962, e desde os 11 anos que se habituou ao ambiente da oficina, onde brincava. O bichinho foi entrando e acabou por tirar engenharia eletrónica, fazer um curso na Bosch e está hoje aos comandos de toda a parte técnica da empresa. Hoje é uma empresa de mulheres. A irmã, Luísa, é responsável por toda a área de gestão. Cristina é que manda nos mecânicos mas não tem dúvidas: “Este não é um meio fácil para as mulheres e eu estou aqui porque sou filha de alguém que esteve sempre neste meio e me passou este gosto”.

Apesar de serem mais novas, Cheila e Vanessa concordam com a certeza de Cristina: “As mulheres têm um problema de estrutura física e de força. Esse é um problema e é também esse um dos motivos que afasta tantas mulheres do trabalho na oficina. Por exemplo, os pneus que se usam em alguns carros hoje ou nos SUV são muito grandes e pesados”. Ainda assim, Cheila garante que numa oficina recente como a da Precision, onde trabalha agora, o esforço físico já é menor. “A oficina está muito bem montada e há equipamentos e ferramentas para tudo. Há girafas, elevadores e alavancas, por exemplo”. E, há um lugarcomum que encaixa na perfeição: “Quem corre por gosto não cansa. A verdade é que, no final do dia, vou feliz para casa”.

AS BOCAS DO COSTUME

Cristina tem mais experiência e uma posição de chefia e isso faz com que não ligue tanto às bocas. Mas não deixa de reparar que “os clientes riem-se muito. Muitos deles não acham piada de ser uma mulher a resolver o problema. E acontece muito serem as clientes mulheres a não confiar. Depois acabam por levar baile”, mas confessa que isso não lhe dá nenhum prazer em especial. As duas mecânicas mais novas têm mais gozo nisso.

“Alguns clientes fazem de propósito e vão mandando bitaites sobre o que estou a fazer para me enervar, só para terem argumentos para dizer que não consegui porque sou mulher”. O problema é que Cheila, como confirmam os colegas, não lhes dá motivos para isso. “É assim que se vai ganhando a confiança dos clientes. Já houve um que veio cá e queria que fosse eu a montar as pastilhas de travão porque tinha feito isso no carro

de um amigo que ficou satisfeito. Não estou disposta a parar por causa de alguns casos de discriminação que existem muito mais da parte dos clientes do que dos colegas, que se habituaram rapidamente”. A maior parte dos clientes acha piada a ver uma mulher a sujar as mãos na oficina, mas “o primeiro olhar é sempre de espanto, às vezes até ficam embasbacados a ver-me trabalhar”.

Vanessa tem uma ideia curiosa. “As maiores discriminações que senti até hoje foram da minha geração e não das pessoas mais velhas que têm sempre mais aquela atitude de me proteger. A questão é que mexemos com o ego dos homens”. Cheila concorda. “Às vezes ficam chateados. Há uns tempos um carro não desenvolvia, fui experimentar e dei com o problema, era um tubo desencaixado. Os meus colegas nunca acreditaram que fosse capaz”.

Mas durante o curso era pior, lembra Vanessa. “Quando eu fazia as coisas melhor do que os rapazes era uma ofensa para eles”. Certo é que foi a segunda melhor da sua turma e isso deu-lhe direito a um estágio de dois meses na fábrica da Volkswagen de Wolfsburgo, na Alemanha. “Por mim não tinha voltado. Foi uma experiência inesquecível. Aí passei a gostar ainda mais e mecânica e foi onde senti que estavam a acreditar mais em  im porque cá se tinha boas notas achavam que era porque falava bem com os professores”.Cheila também o sentiu e não tem problemas em admitir: “Os homens têm sempre a ideia que sabem mais do que eu. Mesmo que não o digam, pensam-no”.

Cristina tem histórias que não acabam sobre feitos que muitos homens nunca acreditaram. “Quando ando assim vestida (com o fato macaco cor-de-rosa) é mau sinal. Quer dizer que tenho que resolver um berbicacho. E quando é uma coisa a sério. Costuma dizer que é a ‘não-dá’. É nesta  altura que a chamam. “Mas se não dá temos que por a dar. Não descanso enquanto não resolvo um problema”. E têm sido vários os desafios, tanto nos pesados como na maquinaria pesada. Há uns anos passou uma semana “às cabeçadas” com uma grua gigante. Mas deu conta dela e voltou a pô-la a funcionar.

FAZEM IGUAL OU MELHOR QUE OS HOMENS

Cristina é hoje chamada por várias empresas de renome em Portugal para resolver problemas mais complicados ou dar a sua opinião. “Há sempre uma solução para tudo. Mas às vezes é preciso pedalar muito para lá chegar”. As mulheres são mais picuinhas e isso é bom para resolver casos mais complicados. Fora da oficina são mulheres como as outras, mais ou menos vaidosas, que gostam de se arranjar e, mesmo durante o trabalho, há sempre a possibilidade de combinar o elástico do cabelo com a farda.

FUTURO É NA OFICINA

No futuro todas têm ambições e nenhuma pensa sequer em mudar de área. Cristina está já noutro patamar e o seu desafio passa por estar sempre um passo à frente, para implementar novas tecnologias e novas técnicas nas suas oficinas. Mas nunca vai perder a mão, porque não tem medo de sujar as mãos e gosta de grandes desafios. Para já, Vanessa está numa fase importante de aprendizagem, até com a pressão dos tempos pré-estabelecidos das intervenções numa oficina. No futuro gostava de trabalhar para o setor do tuning. Mas calma, interrompe: “Quando digo tuning não é street racing. É toda a parte legal que cá é vista como uma coisa de arruaceiros. A transformação de carros é uma coisa que me agrada muito”.

Cheila vai este ano concorrer à faculdade, para engenharia mecânica no ISEL. “Isto é o que eu quero fazer para toda a minha vida e quero ir dando um passo de cada vez”. Provavelmente ainda vamos ouvir falar nelas no futuro.

Share and Enjoy

Tags: ,


About the Author



Back to Top ↑

Email
Print