Protagonista

Published on Julho 17th, 2013 | by Cláudio Delicado

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Manuel Silva. “A repintura só é rentável se for feita à primeira”

A qualidade e a gestão são hoje duas regras de ouro para vingar na repintura automóvel e desperdiçar tinta ou ter que repetir um serviço podem deitar um negócio por terra. Esta é a convicção do experiente Manuel Silva, do Grupo Autoflex. A Zona Insdustrial de Fiães serve de sede ao Grupo Autoflex, um dos mais antigos e sólidos na área da repintura automóvel em Portugal. Percebe-se porquê depois de falar com um dos seus sócios, Manuel Silva, que faz da sua vasta experiência na área uma grande mais-valia. Começou sozinho em 1981 e depois em 1984 fez uma sociedade com o irmão. À hora marcada subimos ao gabinete de um homem simples que conhece bem os segredos para o sucesso. Foi isso e muito mais que partilhou com a Turbo Oficina, numa conversa informal que fez com que nos esquececemos do relógio. Manuel Silva não tem dúvidas de que a crise ainda vai durar mais um par de anos e que não há espaço para todos no mercado.

Tudo começou a sério em 1981. Quando hoje olha para trás o que mais recorda desses tempos?

Há uma coisa que acontecia e hoje não: quem quisesse trabalhar vingava. Hoje há muita gente com muitas capacidades e vocação, mas as oportunidades não existem. Naquele tempo o país estava num desenvolvimento muito acelerado, ainda que o início tenha sido difícil porque não havia financiamento e os juros iam até aos 40% e subiam constantemente. Não era fácil gerir os aumentos, mas o país tinha outras condições e com muito trabalho era possível vingar. No automóvel nunca vi uma crise como esta. Hoje vivemos uma crise financeira e de desenvolvimento e não se vê a luz ao fundo do túnel.

Havia menos concorrência?

Não havia menos concorrência porque qualquer drogaria vendia tintas para a reparação automóvel. Havia era pouca gente a trabalhar exclusivamente nessa área. A nossa principal mais-valia foi termos começado com essa especialização. Existiam três grandes fabricantes de tintas em Portugal, mas nenhum era especialista em nada. Por isso foi mais fácil. Hoje a concorrência é menor em termos de empresas mas é muito mais especializada e feroz. Vivemos um pouco numa selva.

Como é que uma empresa sobrevive a estes constantes “ataques” exteriores?

Como gestores procurámos sempre ter uma empresa sólida e assim é mais fácil gerir estes obstáculos externos. Não sou melhor do que outros mas conseguimos alguma riqueza que nos permite ter algum poder negocial na banca, nos fornecedores e também nos clientes porque como não estamos asfixiados não temos que estar a aguentar aqueles clientes que não têm qualquer hipótese de pagar. Certo é que daqui a três anos não estão cá todos. Provavelmente 30 ou 40% não estão no mercado.

Vê o desaparecimento de empresas como um aspeto negativo?

Quando vivemos em conflito poucos são os que ganham e é isso que está a acontecer. As empresas que seguem o caminho do esmagamento das margens podem fazer com que boas empresas sejam arrastadas para o buraco por tentarem acompanhar a concorrência. Há também o problema da falta de crédito. Mas a grande questão é que há menos serviço, reparam-se menos automóveis, há menos acidentes e repara-se só o essencial. Os serviços são cada vez mais baratos por pressão do mercado e também das seguradoras. Qualquer empresário tem que se confrontar com estas questões. E por isso é provável que os bons não fiquem todos, mas acredito que é mais fácil sobreviverem 80% dos bons do que 15% dos maus. E tudo isto vai obrigar a uma limpeza do mercado. O mercado nunca vai voltar a ser o que era mas quem sobreviver mais dois ou três anos vai ter muito negócio.

No final da crise vamos ter um mercado mais profissional?

Teremos que ser todos mais profissionais e isso começa cada vez mais nas equipas. As oficinas vão ter que fazer reparações cada vez mais competitivas e bem feitas porque o mercado é cada vez mais exigente e não só no preço como também na qualidade. Hoje há bons profissionais na pintura, bons produtos e bons equipamentos que ajudam a fazer bons serviços.

Ainda assim o mercado continua a cair.

O mercado das tintas em Portugal teve quedas muito acentuadas. Em 2011 caiu cerca de 16% e, em 2012, 21%. No primeiro trimestre deste ano desceu 20,3%. Temos assistido a uma queda significativa no consumo das tintas em Portugal, no geral. O Grupo Autoflex não está só nas tintas automóveis, a nossa fábrica produz tintas industriais e vernizes, apesar de 95% da Autoflex estar ligada ao setor automóvel, que caiu bastante.

 

FORMAR PARA VINGAR

Em 2002 abriram um centro de formação próprio. Foi uma aposta arriscada?

Alguém tem que ser pioneiro nas coisas. Sempre preferi ter ideias e aproveitá-las do que andar sempre atrás dos outros. Foi uma grande aposta que fizemos. Para darmos um passo em frente tínhamos que ter a nossa equipa interna e termos os clientes bem informados. Gastámos 150 mil euros na altura no centro de formação e muita gente dizia que era uma loucura quando havia alguns centros de formação em Portugal. Isto numa empresa que é distribuidora e não um importador. Mas quisemos fazê-lo e sabia que era uma aposta ganhadora. Os custos da formação reduziram-se, podemos fazer pequenas formações específicas localmente e temos uma estrutura muito mais flexível. Fazemos formação de novos produtos para a nossa equipa interna, para os nossos clientes e para os seus clientes e também formamos os profissionais da área nas novas tecnologias e fazemos também formações de reciclagem.

Continua a fazer sentido trabalhar apenas com a Spies Hecker?

Continuamos a manter uma parceria séria e forte. Não tem que ser um casamento para toda a vida, mas enquanto for útil para as duas partes vai ser uma parceria que vai durar muitos anos. Quando não for bom para uma das partes deixa de fazer sentido. Todos têm honrado os compromissos, dos dois lados e trabalhamos muito juntos, tanto nos produtos, como na formação ou na parte da gestão oficinal. Estamos bem assim porque entendo que quem tudo vende são os supermercados. Nós vendemos um serviço e não apenas tintas. Hoje somos uma empresa muito forte do norte à Grande Lisboa, mas temos também presença no Alentejo e Algarve.

Hoje é muito difícil crescer em Portugal?

O mercado não cresce há muito tempo e neste momento nem há lugar para todos os que cá estão. A estratégia, depois de 2002, foi crescer, depois de atingirmos a notoriedade que queríamos. Adquirimos algumas empresas do setor e agora estamos numa fase de consolidação. Mas a Autoflex está sempre aberta a negócios, de compra ou associação. Hoje, só se aumenta a quota de mercado comprando outras empresas, é a única hipótese em Portugal.

Em 2010 internacionalizaram-se. Foi um passo importante?

Em 2010 tornámo-nos sócios da empresa espanhola Refinish Car, que tem a marca CaarQ que é importante para estarmos mais perto dos consumíveis do mercado e alargarmos a gama do grupo. Mas antes disso já exportávamos algumas coisas para Angola, Moçambique, Espanha e Polónia. Mas diretamente este foi o primeiro passo.

É um caminho que vão seguir?

Já equacionámos a internacionalização muitas vezes, mas é preciso escolher muito bem o sítio para onde queremos ir. Nos mercados maduros como os da Europa não vale a pena investir porque não há crescimento. Noutros mercados, como no africano, torna-se muito mais apetecível, mas a gestão dos ativos é muito difícil. Neste momento estamos a estudar a internacionalização para África, sozinhos ou acompanhados, mas não é uma prioridade. O mercado brasileiro é otimo mas só para quem produz lá.

 

PALAVRA DE ORDEM: AMBIENTE

Na repintura, quais as grandes mudanças nos últimos anos?

A introduçao dos produtos base água vieram mexer com o mercado, assim como as regras ambientais, que tiraram muitos operadores do mercado, reduzindo o número de operadores que produzem tintas. É preciso estar perto da linha de montagem, com uma grande capacidade de desenvolvimento. O segredo está no domínio da formulação da cor e em ter o produto disponível rapidamente no mercado para repintura. Mas foi essencial o início de uma nova mentalidade: a de que a repintura só é rentável se for feito à primeira. Se for preciso repetir perde-se dinheiro. Por isso, as oficinas devem estar mais preocupadas em escolher um produto que lhes garanta um bom serviço à primeira do que discutir uns euros no preço. Basta terem que repetir uma ou duas operações por mês para perder dinheiro. E essa consciência existe cada vez mais.

As normas ambientais são demasiado pesadas?

As normas ambientais vieram obrigar as oficinas a adaptarem-se a novas tecnologias e a deixarem o passado. A legislação atual em termos de resíduos, reciclagem e gestão de efluentes obriga a gastar muito dinheiro. Mas há uma forte consciencialização da maior parte dos empresários. A fiscalização a isso obriga e já lá vai o tempo em que os resíduos eram despejados numa vala. Mas a fiscalização tem sido intensiva e, muitas vezes, exagerada. A fiscalização devia ser mais formativa e preventiva e não tão repressiva. Infelizmente em Portugal qualquer fiscalização que existe é sempre repressiva. Muitas vezes não vêm que uma oficina cumpre 99,9% das normas, mas por um pequeno pormenor passam multas altíssimas. Isso revolta os empresários e não traz nada de bom para o setor. Não tem havido muito bom senso nesse aspeto. Regra geral são questões que não prejudicam o ambiente, são meros formalismos. Esse rigor deve ser para quem põe em causa o ambiente.

Hoje temos um setor mais limpo?

Só o tempo dirá se todo este rigor na Europa é benéfico, mas melhorou significativamente a poluição e gestão dos resíduos na reparação automóvel. A maior parte dos efluentes são tratados, os resíduos são encaminhados para as entidades gestoras e isso levou a que os produtos também mudassem. Hoje garantem muito menos desperdício. São tintas mais caras e acaba-se o desperdício. Antigamente os restos iam para o lixo e pronto, hoje é preciso reciclar e isso é caro. Explicamos nas nossas formações aos gestores oficinais que para ganharem dinheiro têm que evitar o lixo e o desperdício de tintas e consumíveis. A quantidade de lixo na repintura há 15 anos era três vezes superior ao que é hoje. Temos dos melhores profissionais e 80% dos pintores em Portugal são muito bons.

As marcas automóveis apostam cada vez mais na personalização da cor. Isso dificulta o negócio?

Complica sobretudo a gestão na oficina automóvel. Hoje os sistemas de peritagem das seguradoras são quase todos automáticos e as tabelas deles não são sensíveis para uma cor que custa 1000 euros o litro. E hoje começam a aparecer muitas cores de efeitos especiais. Quem compra o carro não tem essa perceção, só quando precisa de pintar. Quando percebe que para pintar um guarda-lamas a seguradora paga 50 euros e só para a tinta gastam-se 150 ou 200 euros. Tem sido uma batalha entre as oficinas e as companhias de seguros. O bom senso deve imperar e não é possível um carro com cor de efeito especial ser pintado com uma tinta normal. São conflitos que existem porque as companhias de seguros, por vezes, são um pouco cegas. Também é um facto que os construtores automóveis deviam ter mais bom senso. Quando se fala de um utilitário que custa 15 mil euros com tintas a custar 1000 euros o litro porque tem efeitos especiais não faz sentido. Faz sentido que essas cores se usem em carros topo de gama.

Que tendências vamos encontrar no futuro na repintura automóvel?

Aí os designers e os fabricantes de automóveis é que vão ditar as leis. Não acredito que surjam muitos novos pigmentos. O leque de pigmentos e de cores que existem hoje já é muito vasto. Julgo que temos sistema montado para mais 20 ou 25 anos sem grandes mudanças.

O que é essencial para que uma oficina esteja bem preparada para a repintura automóvel?

Hoje se não tem cabina de pintura não pinta em condições. É essencial e é a ferramenta mais essencial, mas é fundamental ter um conjunto de pistolas de qualidade e selecionar uma marca de tintas que dê garantias que faz o serviço bem à primeira. Estes três fatores são essenciais.

Com tanta experiência nunca lhe passou pela cabeça ter as suas próprias oficinas de repintura automóvel?

Está completamente fora de questão. Somos uma empresa que presta serviços e faz parcerias com oficinas automóveis. Não queremos ser concorrência dos nossos parceiros. Já fui aliciado para muitas coisas desse género, mas há regras que não quebro. As redes de oficinas apostam pouco em pintura.

Há espaço em Portugal para haver uma rede especializada em repintura automóvel?

Poderá surgir, mas não acredito que seja fácil ganhar dinheiro com isso. As redes existem para prestar serviços fáceis e rápidos de fazer. A pintura é uma coisa que exige espaço, as questões ambientais são muito pesadas e é preciso uma equipa muito especializada. Por isso não veja que seja um casamento fácil com as atuais redes de oficinas. O investimento é grande. Na Europa já existiram algumas tentativas, mas redes apenas de pintura.

O que falta ao mercado da repintura?

O que falta é trabalho. A quantidade de trabalho é francamente baixa hoje. Há muito menos dinheiro, menos carros, e menos acidentes, que é uma das coisas que traz trabalho às oficinas. Prevê-se que se vendam 85 mil carros este ano em Portugal, cinco vezes menos do que há poucos anos. Sem carros a circular nas estradas não há reparação.

 

Entrevista publicada na edição de Junho de 2013.

 

Quer um PDF com a entrevista na íntegra? Envie um e-mail com o pedido para oficina@turbo.pt

 

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