Protagonista

Published on Dezembro 19th, 2012 | by Cláudio Delicado

José Carvalho Neto. “Somos um oásis em Portugal”

É um caso concreto de que um canudo não é determinante para se atingir a excelência. A prática, o envolvimento e o empenho deram-lhe  capacidade de liderar áreas desde os recursos humanos, à área comercial e à produção. Saiba quem é José Carvalho Neto, um homem do norte nascido no Rio de Janeiro que é um dos responsáveis por ainda haver fábrica da Continental em Portugal.

A s instalações da Continental Mabor são uma cidade dentro da freguesia de Lousado, no concelho de Vila Nova de Famalicão. Chegamos mais cedo do que as 9h30 combinadas para a entrevista porque a agenda do presidente do conselho de administração da fábrica está sobrelotada, agora que regressou aos comandos da sua “menina”, dez anos depois de ter saído para o Grupo Amorim. O imenso parque de estacionamento e a azáfama de camiões junto à portaria dão uma ideia do movimento diário. Entramos e são edifícios atrás de edifícios. Mesmo antes da hora, José Carvalho Neto já está à nossa espera. Substitui o fato e a gravata por uma roupa de trabalho, orgulhosamente com o logótipo da Continental Mabor bordado no bolso. Nunca deixou de se considerar um operacional e passou por vários departamentos na unidade de Lousado desde que entrou para a então Mabor, em 1970. É o verdadeiro self-mademan. O gabinete reflete a sua postura simples, descontraída e simpática. Já adiou a reforma por três vezes e não garante que o faça dentro de dois anos, quando acaba o seu contrato. “Tenho dificuldade em recusar um bom desafio”, diz. Só um pneu encostado à parede do gabinete nos lembra onde estamos, na segunda maior fábrica da multinacional alemã na Europa, que é o quarto construtor mundial de pneus. A experiência dos seus 66 anos fá-lo lidar bem com o gravador, as fotografias e não foge a uma única questão. Podíamos passar horas à conversa.

Entrou para a Mabor faz este ano 42 anos. De todos os anos que esteve na empresa qual foi o seu grande projeto?

O mais desafiante foi a reestruturação que fizemos na empresa, em 1992, para a salvar. Partimos de uma fábrica da qual só o invólucro se manteve. Tudo o resto era novo. Havia um ambiente de trabalho pouco favorável, uma preocupação e um espírito não compatíveis com os tempos mais modernos e com o mercado. Era muita coisa a mudar ao mesmo tempo numa transformação total, de hardware e software. Foi um grande projeto em que mudou a preparação e mentalidade das pessoas, mas também as questões técnicas e tecnológicas.

Esteve fora dez anos, oito dos quais no Grupo Amorim. Quais as principais diferenças que encontrou entre a fábrica que deixou e a fábrica do início deste ano?

Notei bastantes diferenças. Em primeiro lugar a dimensão. Hoje temos cerca de 2450 empregados (800 em regime de outsorcing). Quando saí estávamos a produzir cerca de 30 mil pneus por dia. Agora são cerca de 52 mil. Os pneus que produzíamos eram mais simples e mais pequenos do que os de hoje. Neste momento falamos de alta performance e também de pneus ecológicos, algo que estava a começar quando saí. Noto também um desenvolvimento forte das qualificações das pessoas, o que faz desta fábrica um dos melhores exemplos de quadros e de knowhow.

Esteve fora mas acompanhou sempre o trabalho que se fazia aqui. Foi essa evolução que ajudou a convencê-lo a voltar?

O Grupo Amorim está hoje numa fase muito desenvolvida em termos organizacionais, ao contrário do que acontecia há uns anos. Por isso, tanto a minha importância como a quantidade de trabalho estavam a diminuir. Tinha ideia de me reformar dentro de dois ou três anos. E nesse sentido era natural que fosse tendo menos responsabilidades.

E daí veio um novo desafio que não foi capaz de recusar…

Foi a Continental Mabor. Conhecia muito bem a empresa, como tinha evoluído e os grandes desafios que tinha pela frente. E aceitei fazer um contrato de dois anos. É a melhor forma de deixar a vida ativa em plena actividade e sair daqui com o gosto de ter participado até ao fim num projeto de grande importância.

É também uma forma mais confortável de sair?

Para mim foi absolutamente confortável. Embora existam muitas coisas diferentes, inclusivamente em termos de pessoas e de processos. Muitas coisas tive que aprender ou relembrar. Mas é sempre voltar a casa e isto facilita muito as coisas.

E acredita que é mesmo daqui a dois anos que se reforma?

Em princípio sim (risos), mas francamente não sei. A minha vida tem sido feita de muitos desafios e surpresas. Neste momento tenho um contrato de dois anos, mas quem sabe…

O fato de ter desempenhado várias funções e de ter subido pelo seu mérito ajudou a que tenha uma relação diferente com os trabalhadores?

É um ponto fundamental. O grande sucesso que tivemos desde 1992 para a frente baseou-se no desempenho dos trabalhadores e isso resultou, entre outras coisas, de um relacionamento bom entre a gestão e os trabalhadores e num espírito de confiança muito grande. Estar sempre próximo das pessoas é um dos grandes pontos fortes. Quando estava nos recursos humanos passava muito tempo na produção a falar com as pessoas e a conhecê-las.

Isso ajuda a explicar que a fábrica de Lousado seja líder em critérios de qualidade dentro de todo o Grupo?

É uma das melhores em termos de qualidade, pontualmente é a melhor. O que faz a diferença é a eficiência, e são as pessoas, a sua preparação, motivação e comunicação entre os diversos departamentos. Um fator importante é também a rápida capacidade de reacção face a qualquer aspeto que corra menos bem para ser prontamente corrigido.

O que o motiva é também estar aos comandos do quarto exportador nacional? É uma responsabilidade grande?

Neste momento somos o quarto, outras vezes o quinto. É uma responsabilidade muito grande mas também porque a fábrica de Lousado desempenha um papel muito importante no grupo Continental, que coloca aqui a sua melhor tecnologia e que a torna pioneira em determinados aspetos de desenvolvimento. A responsabilidade tem a ver com a dimensão das exportações mas também com trabalhadores e as suas famílias, perante a região e o país.

O que vê a gigante Continental na fábrica portuguesa de Lousado?

A fábrica deu uma volta muito grande a partir de 1992. Passou a merecer a confiança da Continental, e passou a aceitar e a responder a desafios importantes. Esta é uma fábrica inicialmente muito recetora do conhecimento, mas que passou também a exportar conhecimento. Esta é a fábrica que mais apoia as outras unidades do Grupo e que dá uma grande resposta aos desafios da Continental central. Os resultados são ótimos e isso também ajuda. Na eficiência somos, provavelmente, a melhor fábrica do Grupo e na rentabilidade somos praticamente imbatíveis.

Mas há um factor que não é fácil de contornar. Como se resolve o facto de estarmos longe do centro da Europa?

Isso prejudica necessariamente o nosso trabalho. O desafio é ainda maior. A mensagem que passamos entre nós é que temos pelo nosso desempenho e rentabilidade que compensar o facto de estarmos longe dos nossos mercados principais que são Alemanha, Países Baixos, Espanha, Reino Unido, República Checa e França. Se nos compararmos com Eslováquia e Polónia por exemplo, estamos demasiado longe. Mas os resultados estão do nosso lado.

Os resultados e a tecnologia, a mais avançada da Continental.

Temos um departamento de industrialização de produto, de desenvolvimento, com 15 pessoas e temos um gabinete de inovação com três pessoas. A casa-mãe decide o que quer desenvolver e escolhe uma fábrica para fazer a industrialização dessa inovação. Por exemplo, o ContiSeal, que é um selante interno dos pneus, foi desenvolvido aqui e na República Checa. A única diferença é que em termos quantitativos a fábrica de Lousado teve prioridade. Neste momento temos ainda alguns pneus mais convencionais, mas o principal que sai desta unidade são pneus ecológicos (ContiEcoContact), muitos pneus de Inverno, onde a Continental é líder europeia, mas também pneus de alta performance, com maiores índices de velocidade e ainda pneus para SUV. O nosso caminho é cada vez mais o dos pneus de alta performance. Quanto mais melhor. Hoje são feitos, em média, 52 mil pneus por dia.

Atualmente 97% de tudo o que é produzido nesta fábrica é para exportar.

Já é um pouco mais do que 97%. Em Portugal o mercado é muito pequeno, mas temos ganho quota de mercado. Nos pneus que fabricamos aqui temos cerca de 20% de quota de mercado. Aqui falamos de cerca de 61% para reposição e 39% para equipamento original, essencialmente para a Autoeuropa. Os nossos produtos vão para a Europa, Estados Unidos e Canadá e agora cada vez mais nos mercados emergentes de Leste. Também exportamos para a China, mas a estratégia da Continental passa por produzir lá para esses mercados. Está a ser feita uma grande fábrica na China.

Como é que se transportam todos esses pneus para a Europa?

Principalmente por camião e uma pequena fatia por via marítima. Quando havia um equilíbrio entre importações e exportações não havia problemas de transporte. Mas agora, com a crise, não raras vezes os nossos transportadores, que são empresas grandes, não têm carga de retorno da Europa. O que significa que, muitas vezes, temos dificuldade em arranjar camiões. Por dia entram e saem cerca de 300 camiões.

A matéria-prima chega de onde? Existe alguma percentagem de incorporação nacional?

Essencialmente vem da Europa e do Extremo-Oriente. Estamos a falar de consumo grande de borrachas, quer natural, quer sintética que não há cá, diversos óleos e centenas de compostos químicos. Negro de fumo é a única coisa com relevo que Portugal oferece para a nossa produção.

Em que medida é que as condições internas do país influenciam a rentabilidade e os resultados? Nomeadamente o custo do trabalho, os impostos…

Influencia sempre. Os salários aqui na fábrica são bem superiores à média nacional. São salários que são muito superiores aos da República Checa ou da Eslováquia. Mas conseguimos compensar esses custos com altíssima eficiência. Os impostos levam-nos uma fatia importante. Dos 163 milhões de resultados líquidos que apresentámos em 2011, já estão descontados os 58 milhões em impostos. É pesado. Quando se está a competir internacionalmente com outras fábricas é complicado. Tal como a burocracia que existe por exemplo para um simples projeto de expansão de instalações, mas também os aspetos legais, com a reforma da justiça constantemente adiada a dificultar o nosso trabalho. Em todos estes fatores a reforma laboral é a que menos impacto terá para nós.

A Continental é hoje uma empresa em paz em termos laborais?

Sem dúvida. As pessoas sentem que é bom trabalhar na Continental Mabor. É uma empresa de confiança. São bem tratados, não só em retribuição ao final do mês, mas em termos sociais, de saúde, prevenção e segurança no trabalho. Isto faz-nos acreditar que esta fábrica tem uma situação para durar.

Para essa certeza também contribui o projeto de expansão das instalações?

Em 2000 a Continental Mabor ocupava uma área coberta de 30 mil metros quadrados. Neste momento tem 103 mil. Mas temos em curso um projeto de expansão de 78 milhões de euros que estará concluído no final de 2013 e nos levará aos 17 milhões de pneus por ano. Depois desse temos já outro projeto, a começar em 2014 para expandir e chegar aos 20 milhões de pneus por ano, aí com um investimento de cerca de 100 milhões de euros. Se contarmos com isto e com as áreas de armazéns, estamos quase a chegar aos 20 hectares.

Quem ouvisse agora a nossa conversa achava que a Continental Mabor passa por completo ao lado da crise. É assim?

Se olhar para os resultados dos últimos anos a conclusão é que parece que não há crise à volta da Continental Mabor. Temos produzido e vendido muito bem, resultados excelentes, é um oásis e seria ótimo que houvessem muitos casos destes no pais. Não estaríamos certamente na situação em que estamos. Continuamos a crescer e este ano, a não ser que aconteça algo de muito estranho, também vai ser assim.

As questões ambientais estão na ordem do dia. Em que patamar estão nesta altura?

Tem melhorado muitíssimo. Houve uma grande redução do desperdício através de uma melhor qualidade interna. Tem havido grande redução do consumo de água por tonelagem produzida e também de energia. Eliminámos por completo alguns produtos que foram considerados prejudiciais para a saúde.

Quais são os maiores desafios que tem entre mãos?

Tendo herdado uma fábrica esplêndida, fazer com que não haja qualquer regressão, mas sim progresso nos mais variados aspetos. Em termos de eficiência, melhoria da qualidade, aumento de volume de produção e melhoria de resultados. Tudo acompanhado pelo sucesso dos projetos de expansão.

DE CORPO INTEIRO

Continua a ir todos os dias à produção?

Vou menos vezes do que gostava, mas acompanho a produção muito de perto.

O desafio pessoal é muito grande neste momento?

A maior dificuldade é tempo. De resto tive uma reintegração fácil. Eu entendo bem a linguagem das pessoas e o contrário também acontece. Sou muito orientado para os recursos humanos.

Está atento ao que a concorrência faz?

Não. Isso é feito a nível central.

Quem é o “seu” principal concorrente?

É a Michelin. Não é a maior do mundo, mas é o nosso maior concorrente.

Qual o feito pessoal que mais se orgulha?

Ter três ótimas filhas e uma ótima esposa. Sabem quão importante isto é para mim em termos de vida e de auto-estima e apoiam muito.

Tem tempo para a vida pessoal?

Chego às 6h15 da manhã, saio por volta das 19 horas. Ao sábado venho só de manhã. Mas gosto muito de descansar e de passear.

Quanto tem um dossiê importante em cima da secretaria é mais racional ou emotivo?

Decido rápido, sempre com base na opinião da minha equipa. Já decidi contra a minha opinião e isso mostra que pensaram melhor do que eu.

Quando vai na rua costuma olhar para os pneus que os carros têm?

Sim. Faço isso bastante. Quando não são Continental lamento que a pessoa tenha feito uma má escolha (risos) e na família é proibido.

O que gosta de fazer nos tempos livres?

Gosto muito de ler, de viajar e de partilhar com a minha família os meus tempos livres. Têm-me aconselhado a entrar no golfe, mas não tenho tempo para isso.

O que mais o irrita?

A falsidade.

E o que mais pede aos seus colaboradores?

Envolvimento.

Tem orgulho em Portugal?

Do que dependesse de mim Portugal voltava a ser um país bom para viver e não um país bom para exportar pessoas.

Qual é o seu lema de vida?

Apenas respeito por princípios e valores.

PERFIL

Filho de pai português e mãe brasileira, José da Silva Carvalho Neto nasceu no Rio de Janeiro, a 3 de Julho de 1945. Aos 11 anos mudou-se para o Porto, onde ainda hoje vive. Entrou na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto em 1964, para Engenharia Química, curso interrompido para cumprir o serviço militar, entre 1967 e 1969. Voltou depois à faculdade, mas nunca chegou a acabar o curso. Ficou a um ano e meio do fim. Na vida profissional foi a única coisa que deixou a meio. Começou a trabalhar na Mabor como chefe de pessoal, em 1970. Teve a grande prova de fogo co
m o 25 de Abril, muito hostil para quem comandava os recursos humanos. Mas superou essa prova. Em 1984 foi convidado para diretor de produção e, em Setembro de 1988, Américo Amorim passou a controlar a empresa. Carvalho Neto foi desafiado a ir recuperar a fábrica de Angola que estava parada. Esteve lá cerca de 18 meses. Estava lá quando se deu a jointventure e se criou a Continental Mabor, em 1989. A multinacional alemã ficou com 60% e Américo Amorim com 40%. (em 1993 o capital passa integralmente para a empresa alemã). Regressou e, entre várias hipóteses, ficou como diretor comercial. “Eu que em 45 anos nunca tinha vendido um pente”. Em 1992 as coisas não corriam bem na fábrica. Aspetos laborais graves e quase permanentes levaram a Continental a quase abandonar o país. Mas decidiram alterar a equipa de gestão da fábrica. Carvalho Neto ficou na administração industrial, com a fábrica e o grande projeto de reestruturação que salvou a empresa. De 1996 a 2000 assumiu a liderança do conselho de administração e, entre 2000 e 2002 foi tentar também salvar as fábricas da Continental no México. Pensou depois em reformar-se mas em Janeiro de 2004 foi desafiado para ir para o Grupo Amorim. Aceitou e lá ficou até Novembro de 2011. Há quatro meses, em Janeiro de 2012, aceitou regressar a casa, à sua Continental Mabor, onde quer acabar a carreira profissional. Pela porta grande
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