Protagonista

Published on Março 7th, 2013 | by Cláudio Delicado

Hélder Pedro. É o momento mais difícil para o setor automóvel

Helder Pedro, secretário-geral da Acap desde 1992, não tem dúvidas: o setor automóvel vive os dias mais difíceis de que me lembro”. Por isso, estes são tempos de grandes desafios e mobilização. Também para o Aftermarket

Na Acap há 25 anos, primeiro como secretário-geral adjunto e, desde 1992, como secretário-geral, Helder Pedro diz que estes são “os piores anos para o sector automóvel. E se o mercado está ao nível de 1985, não podemos esquecer que a situação é muito mais grave neste momento. Isto porque, em meados dos anos 80, a procura era superior à oferta, dado o regime de contingentação à importação que então se vivia no País. Portugal era uma economia fechada e ainda não tínhamos aderido à então CEE.

Esta situação faz com que a ACAP tenha perdido alguma da sua força?

Pelo contrário, é nos momentos de maior crise que o papel de uma associação centenária como a ACAP se revela ainda mais importante.

Estamos a viver um ciclo político sem precedentes na nossa história, como resultado do memorando de entendimento que assinámos com a Troika, o qual nos impõe um conjunto de obrigações. Mas se é verdade que nenhum outro Governo teve a sua atuação tão condicionada, isso não significa que não se tomem as medidas mais adequadas, ou não se tenham em conta as posições dos diversos sectores. E é aqui que o atual Governo, está, em nossa opinião, a falhar porque não tem demostrado sensibilidade para auscultar as nossas posições nem para perceber a difícil realidade do nosso sector.

E justifica-se a manutenção da habitual postura dialogante e “macia” da Acap?
O papel de uma associação é dialogar com os governantes – manifestar-lhes as preocupações do setor, propor soluções e alertar para as consequências das opções feitas. Ainda agora fizemos uma conferência de imprensa em que transmitimos, precisamente, à opinião pública que não somos ouvidos, o que nos parece ser inaceitável.
É bom recordar que estamos perante um setor cuja retração ultrapassa os 40%; não há nenhuma outra atividade que tenha tido uma quebra semelhante e o Governo parece estar totalmente indiferente. Mas o que é que nós podemos fazer mais para além de denunciar?
O que estamos a sentir é que, para além de insensibilidade, existe uma clara animosidade contra este setor que assegura milhares de postos de trabalho e está no top da atividade económica.

Perante as dificuldades, o que tem feito a Acap?
Solicitámos a criação de uma linha de crédito específica para as empresas do setor, propusemos a reintrodução dos Incentivos ao Abate de Veículos em Fim de Vida (tal como fez a Espanha) e exigimos que não houvesse qualquer aumento das taxas do ISV. Apesar de o Memorando assinado com a Troika prever um aumento das receitas deste imposto, a ACAP exigiu que não houvesse qualquer mexida nas taxas para 2013. A existir, essa mexida deveria ir no sentido da redução das taxas do Imposto, o que o Governo não está em condições de fazer, tal como nos referiu.

Gosta mais da designação Acap ou Associação Automóvel de Portugal?

ACAP é a nossa sigla e Associação Automóvel de Portugal o nome da Associação desde que passámos, também, a representar a AIMA (Associação dos Industriais de Automóveis) que há seis anos solicitou essa integração. O ano passado, a APICAN, associação que representava as empresas do sector da Náutica, que tinha sócios comuns connosco, pediu, também, para se integrar na ACAP.

Na Associação sempre existiram mesas específicas das diferentes áreas (Peças, Pneus, Usados, etc). Porém, o maior protagonismo tem pertencido ao Comércio. Como é que são geridos os diferentes interesses?
A ACAP sempre teve uma estrutura estatutária que dá autonomia às diversas Divisões e Comissões Especializadas, quer para elegerem os seus representantes quer para desenvolverem as suas ações.

Esses interesses são mais antagónicos ou mais coincidentes?
São, naturalmente, mais coincidentes dado que se trata de uma representação empresarial de sectores que se complementam nas diversas áreas de negócio. Outra coisa é a concorrência entre empresas/sectores o que é saudável numa economia aberta como a nossa.
Claro que por vezes podemos ser tentados a pensar que o melhor seria existir uma associação por cada setor de atividade mas sabemos que Portugal está já entre os países com maior número de associações empresariais (800) face à população e à dimensão da economia, o que é contraproducente. Em tempos de crise, como os que vivemos, esta proliferação só retira força às posições.
Aliás, mesmo em países de maior dimensão, como é o caso de Inglaterra, os diferentes subsetores do automóvel estão representados numa única associação. Isto dá peso negocial; acrescenta força. Claro que cada subsetor pode ter, a cada momento, necessidades e dificuldades específicas. Mas numa perspetiva de fazer ouvir a sua voz, é muito importante que exista esta união. Até porque são várias as matérias em que os interesses e as preocupações são comuns. Dou-lhe o exemplo dos operadores desleais, que não cumprem regras e não pagam impostos, que são uma ameaça para todos os que trabalham de uma forma séria.

Nos últimos tempos tem-se assistido ao fortalecimento das mesas de fabricantes e distribuidores de peças. Isso significa uma maior intenção na área do Aftermarket?
De facto a Divisão de Peças e Acessórios Independentes (DPAI) tem vindo a criar uma forte dinâmica no sector, sobretudo no último mandato.
Aftermarket é uma palavra muito mais abrangente. O Aftermarket de hoje é uma cadeia de operadores e cada um desses operadores tem um papel essencial na reparação e manutenção. Para responder aos desafios atuais é necessários chamar os diversos operadores a participar neste novo cenário.

A propósito vale a pena recordar as ligações da Acap com as organizações internacionais mais vocacionadas para o Aftermarket. Que práticas importam para Portugal?
A ACAP, através DPAI, é membro associado da FIGIEFA, (Fédération Internationale des Grossistes Importateurs et Exportateurs en Fournitures Automobiles) tendo, aliás, já exercido a presidência desta Organização. Depois da habitação, o automóvel é o bem de maior valor no agregado familiar, durante a vida de um veículo a reparação e manutenção tem aproximadamente o mesmo valor do próprio veículo, daí a importância de conseguir manter as peças e a manutenção a preços razoáveis. A FIGIEFA deseja manter uma concorrência efetiva no mercado de reposição, defender os interesses dos consumidores em ter os seus veículos, mantidos e reparados numa oficina à sua escolha. Neste âmbito a ACAP e, mais concretamente a Divisão de Peças e Acessórios Independente replica e promove em Portugal, campanhas de esclarecimento aos consumidores e atores do mercado, desenvolve idênticas ações de esclarecimento junto de instituições governamentais.

Com a situação atual do país aumenta o número de situações ilegais em geral e no setor. A ACAP está atenta a isso? É uma preocupação que sente no Aftermarket?
Sem dúvida. A atividade ilegal só prejudica o nosso sector. Pretendemos um negócio de qualidade porque só esse pode sustentar por muitos anos as nossas empresas e é a melhor apólice para os nossos investimentos. Tendo em conta que não existem suficientes resultados positivos por parte das autoridades fiscalizadoras, estamos a optar entrar pelo lado da positivo da questão, valorizar e reconhecer as boas empresas.

Quais as principais metas que o Aftermarket português deve alcançar nos próximos anos? Que passos têm que ser dados e que grandes objetivos têm mesmo que ser alcançados.
Em primeiro ligar é necessário manter uma concorrência saudável para bem do próprio consumidor, pelo que deverá alcançar uma notoriedade e visibilidade diferente.
O mercado necessita de menos e melhores operadores, empresas de maior dimensão, com recursos humanos mais bem qualificados.
Existem também excelentes profissionais que merecem ser destacados e valorizados. É fundamental regular o acesso à profissão e criar empresas qualificadas, falamos da existência de um técnico responsável, formação, sistemas de informação adequados. Promover o negócio através de manutenções preventivas. É com base nestes pressupostos que a DPAI vai orientar o seu plano de ações.

Futuro está nas redes de oficinas
Para Helder Pedro, a indispensável reorganização do Aftermarket português e em especial do setor de reparação independente, passa pelas redes. “É o caminho menos árduo para fazer face aos investimentos elevados e às necessidades tecnológicas inerentes a uma assistência de qualidade nos automóveis modernos”.
O secretário-geral da Acap recorda, ainda, os dados da Divisão de Peças e Acessórios Independentes para salientar que “ao contrário do que acontece nos países mais avançados da Europa, onde 80% das oficinas estão organizadas em redes, em Portugal essa realidade é de apenas 20%”. No entanto, garante, é notória “ uma inversão de atitudes, sobretudo nos últimos dois anos”.
Para Helder Pedro, “este é um sector muito atomizado (18 mil empresas, 40 mil trabalhadores e um volume de negócios de 1,6 mil milhões de euros), com excesso de operadores e demasiadas empresas de pequena dimensão que não libertam os recursos suficientes para fazerem os investimentos necessários à modernização deste setor que aprendeu muito fazendo “learn by doing”. Sem dúvida, um processo desadequado à realidade atual. A adesão a redes oficinais vai ser uma realidade em crescendo. Os profissionais que vêm para o mercado, por falências das empresas onde trabalhavam, vão em alguns casos atender os clientes, pelo que vai ser necessário regular urgentemente o acesso à profissão. É preciso combater a atividade clandestina neste Sector que provoca uma concorrência desleal entre operadores. Por outro lado os serviços de formação e informação terão de aumentar”.

QUESTÕES PESSOAIS

Se tivesse que dar um e um só conselho a um sucessor qual seria?
Esta é, de facto, uma função que exige uma grande diplomacia. E isto não só ao nível interno, e recordo que na ACAP as tomadas de posições são sempre previamente discutidas nos Órgãos próprios, como também nos contactos com as entidades oficiais. Aqui, é necessária também uma atitude construtiva nos contactos a efetuar, com uma boa preparação técnica na discussão dos assuntos. Este é, precisamente, o conselho que eu costumo dar e que é o de existir uma grande preparação técnica no debate dos “dossiers”. A ACAP, ao longo dos anos, é conhecida por apresentar sempre uma boa fundamentação na apresentação das suas propostas.

A falta de sensibilidade dos governantes resulta do défice de conhecimento?
Acredito, realmente, que a falta de sensibilidade resulta do desconhecimento da importância deste sector para o País, quando analisado na sua globalidade. Os governantes preocupam-se muito com os ciclos políticos e com os “timings” eleitorais, pois na generalidade dos casos é essa a sua vida.

O que sente hoje quando atende o telefone e lhe dizem que faliu mais uma empresa?
Esta é uma situação que, infelizmente, se verifica diariamente e resulta, antes de mais, da terrível situação em que se encontra o nosso País. Portugal, face à sua reduzida dimensão e à precária situação das contas públicas, não conseguiu evitar a assinatura do Plano de resgate com as Organizações Internacionais e esta situação irá condicionar fortemente a nossa Economia nos próximos anos. Julgo que deveria ser dada uma maior atenção à Economia e, sobretudo, ao tecido empresarial, pois é por esta via que se geram receitas fiscais e se cria emprego.

A ACAP ainda é estimulante para si?
Eu diria que é cada vez mais estimulante o trabalho desenvolvido numa Associação com a dimensão da ACAP, onde os novos projetos têm sido uma constante ao longo dos anos. Por outro lado, o papel de uma Associação empresarial torna-se ainda mais importante num momento de grave crise para o sector como aquele que estamos a atravessar.

É viciado no trabalho?
Tendo em conta que, ao fim 25 anos de atividade profissional, continuo a considerar o trabalho como a minha principal prioridade, posso dizer que sou um viciado no trabalho. E isto também porque, ao fim de todos estes anos e cada vez mais, continuo a interromper as férias para estar presente em reuniões. E, sobretudo, nunca consigo estar desligado do trabalho seja ao fim de semana ou em período de férias, onde o telemóvel está constantemente a ser utilizado para resolver os mais diversos assuntos.

Decide sozinho?
Gosto de ouvir a equipa mas decido sozinho. Gosto de ouvir bilateralmente e menos em grandes grupos. Acho que as pessoas se soltam mais. Mas sem dúvida que antes de decidir tenho que ouvir sempre muita gente.

É intuitivo ou prepara minuciosamente os dossiês?
Estudo detalhadamente os dossiês. Mesmo recorrendo a alguma intuição – que resulta de todos estes anos no cargo – gosto de estar bem preparado pois esse é o segredo para uma boa fundamentação técnica das propostas que a ACAP faz aos governos e que todos reconhecem.

Alguém no seu cargo tem que ser, em primeiro lugar, conciliador. Consegue dar um murro na mesa e assumir uma posição de rutura?
Já não é a primeira vez que me dizem isso mas a verdade é que, pessoalmente, até me considero uma pessoa mais de ruturas do que de consensos. Mas é claro que tenho a noção que, no cargo que desempenho, não posso assumir estados de alma e, numa reunião, dizer aquilo que me vem à cabeça. Não conduz a nada.
Sei que o meu papel é ser persistente mas se tiver que chegar á rutura… avanço. Na ACAP já assumir por diversas vezes ruturas por palavras e por atos. Por exemplo, já fizemos queixas contra o Estado em Bruxelas e internamente, junto do Provedor de Justiça. E podemos, mesmo, em breve avançar com uma iniciativa semelhante.

Como é que desliga de uma atividade tão intensa?
Bom, a verdade é que devo ser dos poucos portugueses que não gosta de futebol. Além disso, tenho que reconhecer que até há dez anos atrás, não desligava; a ACAP era a minha vida! Depois dos 40 anos tento retomar o desporto e consigo ir ao ginásio (menos do que gostava) e jogar ténis com os meus filhos. Além disso gosto muito de cinema e de passear e, sobretudo, adoro ler livros de História. Isto porque se não tivesse seguido Direito, teria ido para História.

É a indispensável higiene mental “pós 40”?
É isso mesmo. A minha atividade é muito intensa. Ninguém me telefona para dar uma boa notícia. Ao fim de semana quando o telefone toca é para me darem conta de mais um aspeto negativo. É muito desgastante.
No fundo sempre senti, também, que tinha que retribuir a confiança que a ACAP depositou em mim ao nomear-me secretário-geral com 29 anos. Na altura um cargo com essa responsabilidade era ocupado por alguém que vinha das marcas e que tinha fazer a pré-reforma aqui; partilhar com a ACAP a experiência que tinha acumulado e que eu não tinha quando fui escolhido.
Durante estes 25 anos nunca me esqueço dessa confiança e tento todos os dias retribui-la com trabalho.

E o balanço dessa dedicação? O balanço de a ACAP representar 24 horas na sua vida?
É claramente positivo. Não voltaria atrás. Eu teria tido uma carreira de advogado pacata e normal que com certeza teria gostado. Mas – tenho a certeza – não estaria realizado como me sindo hoje.
Onde vai estar daqui a 25 anos?
Quando entrei pensei que iria ficar quatro ou cinco anos e…. aqui estou. A verdade é que só agora aos 50 anos começo a pensar nessa perspetiva de tentar adivinhar o que vai acontecer no futuro.
E o que posso dizer a esse respeito é que vejo-me facilmente como secretário-geral da ACAP. Há enormes combates pela frente. E eu estou disposto a travá-los.

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