Opinião

Published on Abril 11th, 2013 | by Cláudio Delicado

Ana Drago (BE): "É fundamental revitalizar o mercado interno onde as oficinas têm o seu negócio"

Na edição de aniversário da Turbo Oficina ouvimos os grupos parlamentares sobre o setor automóvel e o aftermarket. Durante esta semana publicámos as cinco entrevistas. Hoje é a vez do Bloco de Esquerda. Clique aqui para ver as cinco entrevistas.

 

– Como analisa a atual situação do mercado automóvel em Portugal?

Temos assistido à queda dos registos de vendas de automóveis e isso não pode deixar de nos preocupar. Temos a Autoeuropa a produzir menos e notícias de que o transporte de mercadorias para o Porto de Setúbal também sofre com isso. Na PSA a situação está intermitente, ora abre o terceiro turno, ora não. Isso gera muita instabilidade e tem efeitos muito complicados para o desemprego. É fundamental precavermos uma situação de fecho de qualquer uma destas fábricas, tal como aconteceu há alguns anos com a fábrica da Opel na Azambuja porque isso seria hoje ainda mais difícil de recuperar. O problema neste momento é simples de identificar e diz respeito às medidas de austeridade que estão a ser implementadas por este Governo. Os problemas de produção das fábricas no centro da Europa como em França ou na Alemanha acontecem também por causa dos países da periferia como Portugal, onde se deixou de comprar carros novos.

 

– E em relação ao mercado da reparação e manutenção automóvel?

O setor das oficinas automóveis tem uma especificidade muito acentuada e na grande maioria são PME, que estão a fechar a um ritmo muito elevado. São dois os problemas essenciais: falta de acesso ao crédito e falta de procura do mercado interno. Este último ponto é fulcral, porque o mercado interno está a ser completamente destruído pelas medidas governamentais. É importante que se pare com estas medidas e se analise os efeitos que estão a ter.

 

– Este tem sido um dos setores mais afetados pela crise e pelo aumento de impostos. Foi um mal necessário?

Não há mercado que resista à diminuição dos salários, ao aumento dos impostos sobre o trabalho e sobre o consumo e também à redução do estado social. As pessoas têm hoje o dinheiro contado e acabam por ter que cortas nas pequenas reparações dos automóveis. E mais grave do que isso é que, além de muitas pessoas já não terem dinheiro para reparar o seu carro, já não têm mesmo é dinheiro sequer para andar com ele.

 

– Quais as ideias que o seu partido tem para o setor das oficinas/reparação/manutenção automóvel, onde se incluem grandes grupos no setor das peças também?

O Bloco de Esquerda tem promovido vários debates por todo o país em torno deste tema das PME e dos efeitos das medidas de austeridade. E damos especial atenção também às empresas de reparação automóvel. A principal medida tem que passar pelo reforço dos mecanismos de apoio social, garantindo aos desempregados um apoio quando estão nessa situação. E é preciso desmistificar uma questão, porque o Estado aumenta a sua despesa, mas por outro lado vai aumentar as suas receitas, graças ao consumo. O Estado fica com 23% de tudo o que as pessoas consomem. É fundamental que o salário mínimo seja também aumentado.

 

– Esta política não pode fazer com que outras empresas multinacionais não se queiram radicar em Portugal?

Mais importante que isso é olhar com muita atenção para as PME portuguesas que passam grandes dificuldades. O discurso de apoio às PME foi muito defendido pelos partidos do governo durante a campanha eleitoral, mas entretanto esqueceram-se por completo. São estas empresas as responsáveis por cerca de três quartos do emprego em Portugal. As multinacionais olham para outro tipo de indicadores para tomarem as suas decisões e estas empresas não investem em países que levam anos seguidos de recessão.

 

– Depois desta crise julga que o setor automóvel estará mais forte ou foi totalmente aniquilado? Esta foi uma forma de “limpar” um pouco o mercado?

Falar no fim da crise ainda é precipitado porque não há qualquer luz ao fundo do túnel. É fundamental revitalizar o mercado interno, porque representa 3/4 do emprego e a saída da crise não se faz com as grandes empresas. Até porque no setor das oficinas só temos mercado interno, porque não vêm estrangeiros reparar os seus carros a Portugal. É por isso que estas empresas têm sofrido imenso com as políticas deste governo. É importante desmontar o argumento falso de que os portugueses viviam acima das suas possibilidades. Isso é totalmente falso. Porque a taxa de incumprimento de crédito para comprar automóvel era inferior a 3% antes da austeridade. O incumprimento começou com as políticas de austeridade.

 

– A fuga de impostos é um problema em algumas destas empresas, nomeadamente em oficinas que trabalham à margem da lei. Qual a medida que defendem para acabar com este problema?

Isso leva-nos ao IVA de 23%. O problema da fuga aos impostos não é apenas deste setor e nem sequer tem uma especial incidência nas oficinas. A fuga é um problema e defendemos a fiscalização. O problema é que toda a política fiscal atual ajuda a aumentar o problema e não é por ser obrigatória a fatura que as pessoas pagam impostos. O imposto é tão alto que as pessoas vêem-se praticamente obrigadas a fugir aos impostos para sobreviver. Mais de metade das receitas das empresas são para pagar impostos e isso, como temos visto, tem resultados péssimos.

 

*Ana Drago é deputada do Bloco de Esquerda

 

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