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Published on Novembro 17th, 2012 | by Cláudio Delicado

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Aftermarket. O que vale o mercado português

O mercado da pós-venda tem caraterísticas particulares que o fazem (relativamente) independente da situação macroeconómica. Fazemos a radiografia deste setor vital para a economia nacional.

A economia portuguesa está em crise desde 2001, e entre esse ano e 2009 o mercado da pós-venda tem crescido significativamente em Portugal, passando de 47 milhões de km percorridos pelos condutores portugueses para mais de 68 milhões em 2009, o ano com mais km percorridos (aumento de 45% acumulado, quase 5% de crescimento médio ao ano). Nos dois últimos anos terá havido uma diminuição da quilometragem de 1% ao ano, prevendo- -se que, em 2012, a queda possa ser superior, como avançam as estatísticas de consumo de combustíveis em Portugal. Desta forma, é seguro dizer que este mercado não sentiu a “crise nacional” (entre 2001 e 2008), e vê-se afetado com menor impacto que outros mercados pela atual crise europeia. Mas analisemos mais a fundo o setor.

O MERCADO

Parque automóvel

As várias fontes existentes (ACAP, GiPA, seguradoras) apontam para um parque de ligeiros (incluindo os comerciais ligeiros) de cerca de 5 a 5,5 milhões de veículos. E este número cresceu cerca de 700 mil veículos entre 2001 e 2009, ano a partir do qual se encontra estabilizado.

As significativas quedas das vendas de veículos novos (2012 promete recorde negativo, com vendas ao nível dos primeiros anos da década de 80), não implica necessariamente (pelo menos a curto prazo e se não continuarem durante vários anos) uma diminuição do parque, mas sim um envelhecimento (atualmente cerca de 9,5 anos), aguentando os condutores durante mais anos os seus atuais carros.

Quilometragem percorrida

Já anteriormente referimos o significativo aumento nos primeiros anos deste século, e a sua moderada queda a partir de 2010, que eventualmente poderá acelerar em função da gravidade e duração da crise e da evolução do preço dos combustíveis. Daqui podem vir mais eventuais problemas, como  a dimensão do mercado, tendo também em conta que a quilometragem percorrida pelos automobilistas portugueses (entre 13,5 e 14 mil km/ano), está ao nível de outros países europeus, indicando que este valor terá atingido a maturidade. O aumento da consciência ecológica também não jogará a favor.

Despesa média por carro

Atualmente os automobilistas portugueses gastam perto de 500 euros anuais na manutenção do seu carro. Este valor tem tido aumentos moderados, mas continuados e com uma caraterística notável: o aumento do preço da mão-de-obra dos profissionais do setor tem sido elevada (o dobro do aumento da inflação), mas bem aceite pelos condutores. E nada faz prever que esta situação mude, já que a atual consciência de “ter de manter o carro”, por não estar disponível para comprar novo, faz com que esta componente do custo do orçamento familiar não se veja muito afetada (outra coisa é como pagar a sua manutenção, mas esse é outro assunto).

Podemos estimar que o mercado de pós-venda automóvel vale 2,5 mil milhões de euros, na parte paga pelo condutor. A este valor seria preciso acrescentar a parte das seguradoras, a parte do tuning, acessórios, som, lavagem, além da preparação para venda dos usados, que não é considerada neste cálculo. Este mercado tem crescido nos últimos anos, estabilizando desde 2009, e sem previsão de queda acentuada nos próximos anos.

OS PROFISSIONAIS

Este mercado emprega cerca de 11 mil profissionais (segundo as bases de dados da empresa If-4), distribuídos pelas seguintes especialidades (canais):

1000 Oficinas de marca

Um terço delas já não são “monomarca”, trabalhando para carros diversos de marcas não necessariamente do mesmo grupo. Portugal foi um dos primeiros países da Europa onde este canal de reparação começou a perder mercado, situando-se neste momento em menos de 25% de quota. E o mais grave é que a explicação deste fenómeno não é unicamente o envelhecimento do parque, mas também a perda de fidelidade dos seus clientes tradicionais (proprietários de carros novos). A profundidade da crise das vendas de novos afeta diretamente estes profissionais, que são claramente um “canal perdedor”. Têm dimensão e nível técnico e de gestão para procurar alternativas (promoções e outras formas de fidelização, venda externa de peças,  diversificação da oferta – como pneus -, mas também na melhoria dos serviços, como por exemplo os horários), mas até à data os resultados não indicam que esta reação se tenha produzido.

Atualmente os automobilistas portugueses gastam perto de 500 euros anuais na manutenção do seu carro.

2000 Especialistas em pneus

Dos quais 600 fazendo parte de uma rede (promovida por fabricantes de pneus em alguns casos, redes multimarca noutros). O aumento da quilometragem dos últimos anos tem feito deste setor um “canal ganhador”, juntamente com o facto de Portugal ser o país onde este canal tem a maior quota de mercado : cerca de 70% da operação “mudar pneus”, valor muito superior ao encontrado em Espanha, França ou outros países comparáveis. Tem beneficiado também do aumento dos preços desta operação, que tem sido bem aceite pelo mercado, que tem sido bem trabalhado mediante campanhas sobre segurança ou diminuição do consumo. Sendo um exemplo para o mercado nos últimos anos, tem dois temas a gerir nos próximos tempos: a diminuição previsível da quilometragem e a defesa da sua elevada quota de mercado. A diversificação da oferta, que já é falada no setor desde há vários anos, pouco tem avançado mas é uma ótima solução.

6000 Oficinas independentes

Mais de 300 em rede. A penetração das redes em Portugal tem sido tardia e lenta, mas na atualidade a expansão deste tipo de canal é um dos fatores característicos do mercado, constituindo outro “canal ganhador” (embora algumas das empresas tenham fracassado e outras possam atravessar alguma dificuldade, principalmente em consequência da dimensão do mercado).

E são várias as tipologias de subsectores, todos eles em expansão: os “fast-fiters” (cadeias de origem internacional, como Midas e Precision, especializados em reparações rápidas), os Auto-Centros que reúnem oficina e loja (Roady, Norauto ou Feuvert), as redes de fabricantes de peças (Bosch Car Service, a maior rede de oficinas em Portugal), as “abandeiradas” por grupos de compras (Oficinas AD, “A Oficina” promovida pela Create Business) e as promovidas pelos grupos empresariais do sector (Rino Master da M.Coutinho ou Top Car da Auto Sueco).

A adequada dimensão da maioria destas oficinas, a sua organização profissionalizada, o seu acesso a informação técnica e de mercado, a sua capacidade de negociação nas compras de peças e a sua vocação para os serviços e o marketing tornam este canal uma aposta ganhadora (com acidentes de percurso no caminho), por ter sabido adaptar as vantagens  da oferta independente às necessidades do mercado. As oficinas independentes restantes têm mantido o seu mercado, pela proximidade ao cliente e a boa imagem de que desfrutam em Portugal, mas estão a passar por uma fase de fecho das oficinas menos capacitadas para evoluir com o mercado, derivado também de um excesso de oferta. Calculamos entre 7 e 8% a taxa de mortalidade neste momento, mas acompanhada por uma taxa de novas aberturas de 4 a 5%.

Estima-se que o mercado de pós-venda automóvel valha 2,5 mil milhões de euros, na parte paga pelo condutor.

Em conjunto, o sector independente inclui os principais perdedores (as oficinas de pequena dimensão e sem adaptação ao mercado), e um bloco ganhador de oficinas (em rede ou independentes) que, pela sua dimensão e tecnologia, correspondem ao que o mercado pede.

2000 Distribuidores

A presença direta das marcas dos fabricantes de peças é reduzida na generalidade dos casos a equipas de marketing. O que deixa em destaque o papel dos grandes armazenistas/importadores. Sendo o parque francês 7,5 vezes superior ao português, o maior distribuidor francês fatura unicamente 4,5 vezes mais que o maior distribuidor português. Este subsector de armazenistas/ importadores reúne cerca de 50 empresas de média dimensão, que apresentam bons resultados e que penetram também no mercado da distribuição das peças de marca. Pelo contrário, o tecido empresarial de retalhistas tem também um excesso de oferta e uma elevada taxa de mortalidade. Acontece neste sector como nas oficinas independentes: consolidam e crescem as que têm capacidade e está a desenvolver-se a presença de redes (dos importadores, de grupos económicos, por associação entre retalhistas) e fecham as que não acompanham a evolução do mercado.

OS CONDUTORES

O condutor português nunca evoluiu para o “condutor citadino europeu”, que considerava o carro não como um investimento, mas como um bem de consumo, o que o tornava um cliente diferente na pós-venda. E com a atual situação macroeconómica, reforça-se mais o conceito de carro/investimento, que é preciso manter adequadamente. O que impõe determinados comportamentos do cliente face à manutenção. É sensível ao conceito de marca e ao valor do trabalho profissional, pelo que o preço não é o critério essencial; mas como para além do carro, aprecia também o valor do dinheiro, torna-se mais sensível às promoções e analisa com mais pormenor os orçamentos apresentados (ou os exige, quando não apresentados).

O que explica o êxito das políticas de preço fixo por operação, que vários agentes no mercado lançam; a atual situação não o fez mudar para o “do-it-yourself”, mantendo a confiança nos profissionais.

QUE FUTURO?

Primeiro é preciso resumir a situação do mercado, nomeadamente a manutenção do “bolo total” de negócio, eventualmente com ligeira queda nos próximos anos. Mas também a mudança acelerada dos atores, com canais ganhadores e perdedores, embora em ambos os casos com algumas exceções.

Esta situação cria um aspeto que, no futuro, pode trazer uma nova revolução no mercado: se a situação económica melhora, a tendência é a da retoma das vendas de veículos novos. Aqui o potencial de crescimento do pós-venda será elevado e, mais uma vez, quem estiver preparado para a mudança sairá, claramente, vencedor.

Esta situação de abrandamento da economia vai mostrar também quem tem capacidade para se reestruturar, adaptar e evoluir. Este ano de 2012 é, sem margem de dúvida, fulcral para o setor automóvel.

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